Mostrando postagens com marcador Proseando. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Proseando. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 17 de maio de 2011

Recortes do tempo.

Todos os dias quando me sento diante do computador, procurando algumas, mesmo que vãs, palavras pra escrever, pondero p'ronde foi parar tal inesgotável inspiração de outrora que há anos parece ida.
Essa máquina não me permite pensar. A internet, que de útil muito tem, me controla e aprisiona numa distração infinita e todas as possibilidades tornam-se impossíveis diante dela. As coisas já foram muito diferentes.

Talvez eu mesmo seja a causa dos problemas. Eu não acompanhei a evolução e, hoje, o velho me é tão esquisito. Velho que sou, sinto falta do papel e da caneta, cada vez mais jogados fora. E eu sinto falta de descontar sentimentos no papel com tanta voracidade a ponto de estourar a caneta. Ou então escrever tão rápido uma idéia que não pode ser perdida e não entender nada que está escrito. Ainda assim, o papel me atrapalha; rabiscos, desenhos e borrões me roubam a atenção, acabando pensando demais e perdendo o sono por causa disso. Quem dera fosse proibido sofrer.

Do que mais sinto saudade é da minha máquina de escrever. Lembro-me bem de observar o meu pai fazendo um sem-número de contas numa máquina de calcular arcaica quando eu ainda tinha uns seis anos. Cresci sonhando um dia poder calcular como meu pai, só pra poder operar uma máquina daquelas. Com o tempo descobri que cálculos não são meu forte.
Quando adulto, querendo sentir-me próximo do meu pai, comprei uma máquina de escrever que me acompanhou por muitos momentos. O que mais me causa nostalgia são as noites perdidas sentado diante dela com apenas uma finalidade: escrever. Era um resultado tão perfeito, já que cada erro era uma dor diferente. Meu inconsciente não me permitia errar.

De quantas coisas eu disse sentir falta? O tempo passou tão rápido e eu já nem consigo mais pensar coerentemente. Nunca enxerguei vaidade em mim e minha vida sempre se resumiu a umas poucas coisas: me drogar, foder e escrever.
Infelizmente, as drogas me consumiram na mesma proporção que as consumi. Mas por um tempo foi tão bom... Quero voltar a pensar: Foda-se, sou jovem. Mas já sou velho.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Deewa, o profeta. Pt 2 - Adaptação.

Foi por puro instinto que Rodrigo decidiu sair Rio de janeiro afora atrás do seu amigo. O campo aberto onde Felipe – agora conhecido como Deewa - fora encontrado, não era lá tão afastado de todos assim. Afastado, sim, porém não por distância e sim por despercebimento. Após 15 ou 20 minutos de caminhada por uma trilha de lamacenta, perto de uma das rodovias mais importantes da cidade, lá estava um lugar inacreditavelmente... diferente de todo aquele concreto.

O apartamento de Deewa era um ambiente estranho, úmido e apertado habitado por ninguém mais além do próprio. Na sala, sobre a mesa de centro, pairava uma escultura de coruja que se dizia ser o resultado de mais uma de suas fases. Deewa, tomado por um espírito estranho saído de um programa de TV (na época em que ele ainda não achava que a televisão era uma ditadura), entrou para uma doutrina que cultuava as corujas como as imagens de maior sabedoria no mundo, maior mesmo que todas aquelas imagens indianas que transmitem paz, espiritualidade, etc. Ninguém nunca soube o nome desse culto, ninguém soube por que ele deixou de lado, ninguém sabe por que diabos ele resolveu participar daquilo por 30 minutos que fosse.

Quarto > armário > porta trancada > revirada total pelo quarto > chave > terceira gaveta > cuecas > meias > escritos.

Os textos tinham todo o mesmo caráter, mostravam a vontade que Deewa tinha de desapegar-se das coisas materiais que tanto lhe incomodavam. Curiosamente, elas não tinham ordem lógica ou cronológica. Rodrigo, confuso, não sabia por onde começar e encontrava-se mais perdido que qualquer outra pessoa que fosse ler os manuscritos, pois ele, no papel de bom amigo, sabia que Deewa era um cara organizado. No momento, a qualidade de organização não se fazia presente.

Algum lugar perto da Costa Verde, algum dia do mês de maio de 2006.

Escrevo do lugar mais deserto onde já estive. Não sei nem ao menos onde estou e perdi meu relógio-bússola-astrolábio-qualqueroutramerda (paguei 1000 reais nisso) há uns quatro dias, desde então venho sem saber o horário, o dia e a direção pr'onde vou. Continuo, pois sei que isso não é razão pra me perder.

A comida está racionada e isso faz com que eu me sinta bem. Sinto-me livre e assim vou sendo até mais uma vez encontrar o caminho de volta pra casa. Cedo ou tarde ele aparece. Perdido na selva eu me sinto um homem melhor, mesmo sentindo fome e sede.

Não sei de nada. Por aqui não existe certo ou errado, dólar ou euro, capitalismo ou comunismo, não existe forma de compreender o que é esse lugar. É estranho, mas aqui pode ser um mundo onde eu criaria todas as regras. E aqui, acima de tudo, o amor EXISTIRIA, pois cansado estou daqueles que, irritados e perdidos nas próprias frustrações, declaram não serem capazes de se acostumarem a ele.

Tudo é tão simples: paixão > paixão > cegueira parcial > paixão > cegueira completa > desilusão > sofrimento. Ou então, paixão > amor > anos > velhice > morte feliz, com alguém ao lado.

Qual a dificuldade de escolherem de vez algum dos dois? Adaptação é o problema, pois tudo é motivo para o fim: decepções, traições, mentiras, etc.

O meu amor mais importante chegou ao fim por causa de distância, na época disseram-me que não existe amor sem beijos. Pergunto-me todos os dias, desde então, se o canto de um pássaro passar a ser menos bonito se ninguém está por perto para escutá-lo.

Não pisarás em terra deewanica se desprovido de adaptação fores.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Deewa, o profeta. Pt 1 - mudanças geram mudanças.

Levanta, checa se tudo está no lugar, agradece às estrelas por mais um dia. Era estranho, mas de uma forma diferente. Não se importava em parecer comum, talvez fosse até mais comum que os padrões sociais. Ele queria estar em outro plano e assim o fazia. Era espiritualmente superior a todos que conhecia. Deixou a barba crescer por um tempo e foi apelidado de muçulmano embora viesse de família européia e não passasse de um polaco com bochechas rosadas pelo sol inevitável e escaldante da cidade do Rio de Janeiro.
Criticava, mentalmente, todas as pessoas a sua volta que, persistindo nos próprios erros (e também nos erros alheios que viam e pareciam não notar), continuavam a viver de olhos fechado. Era tudo em sua mente, pois ele sabia que para escapar de todos os problemas, bastava carregar um sorriso no rosto, mesmo que claramente seus olhos denunciavam um estado sentimental contrário. Alegria (ou felicidade) para ele era relativa e bastava estar bem para se sentir bem. Tinha pensamentos difíceis e justamente por isso julgava-se superior, mas acima disso, mantinha a humildade acima de tudo. Até emagreceu para mostrar que mesmo com comida escassa e usufruindo apenas do necessário, ele poderia viver. Na infância, viu nos desenhos fascistas da disney, que "Necessário, somente o necessário, o extraordinário é demais". O capitalismo, em sua opinião, às vezes servia para ensinar muitas coisas, embora ele fosse contra muitos valores dessa exaltação de capital.
Por um tempo acreditou em mágica, no I-ching, na bíblia, em tarot; por um tempo, execrou hitler, jesus, buda, elvis, os beatles, bob dylan e até mesmo antigos líderes de Estado. Ele já tinha amado tudo aquilo e, da mesma intensa forte, odiado. Se aquilo não servia para fazê-lo bem, ele não precisava se preocupar, bastava manter a alma limpa. Ele, acima de tudo, acreditava em si mesmo e talvez seja esse o ponto principal da história. Ele sempre correu atrás do que queria, mas por pura preguiça, desistia de coisas tão grandiosas quanto invenções que revolucionaram o mundo.
Com alguns centavos se sentia bem, mesmo se em lugares desconhecidos. Sentia-se em casa em qualquer lugar e, certa vez, seu corpo fora encontrado perto de um lago, num campo aberto, mas afastado de todos. Em seu peito havia o envelope com os seguintes dizeres:

Eu não gosto de viver com os mesmos ideais para sempre. Tudo muda e, perdidos ou não, devemos nos encontrar em nossas próprias mutações que, condicionadas a nós, nos tornam exclusivos. Talvez eu seja um pouco de neglicência ou qualquer outra merda, mas, em meu apartamento, na terceira gaveta do armário, debaixo das cuecas e meias, estão todos os meus pensamentos que presumo que sejam importantes para a construção de um novo mundo. E eu falo sério, já que não escrevo por escrever. Se fosse assim, eu repetiria frases que já foram ditas

Ele procurava se encontrar, mas vivia em fuga.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Contradição.

Certa vez ouvi falar que uma alma é perdida se, antes dos 30, não for de esquerda. Eram tempos diferentes. Os jovens de hoje estão diferentes dos de antigamente.

Pouco estudo, muito tempo na estrada, dois empregos pra sustentar a família que aumentou. E eu costumava escrever como se fosse morrer no dia seguinte. Vendendo textos eu tirava a renda pra sustentar eu, Anna, o amor de uma vida inteira, e Rita, a velha kombi em que viajávamos por aí. Agora as coisas são outras, eu segui o rumo (quase sempre) natural das coisas e segui aquela velha ordem de fatores: Nos tornamos velhos, obsoletos, construímos famílias. Para protegê-las, procuramos outros partidos, outros políticos, outros ideais, passamos a viver em reclusão, acreditando que se está bem. Estamos seguros em condomínios com circuito de TV.

Eu vivo pra contar história e por isso conta mais uma: Certa vez, em um trabalho temporário como carcereiro de uma prisão no oeste, fiz amizade com um dos prisioneiros da cela mais próxima da cadeira onde eu costumava ficar (era um emprego fácil, apesar de tudo. Não há muito trabalho num lugar tão monótono como aquele).
Conversa vai, conversa vem, Jack (era esse o nome do prisioneiro) ao me responder a pergunta, disse que quando saísse dali, reencontraria a esposa e os filhos, que provavelmente deviam estar sem rumo, e procurar um emprego digno. Achei engraçada a mentira tão sincera daquele cara, pois seus olhos faziam com que meu pensamento se direcionasse para:
- É claro que eu vou voltar a roubar quando sair daqui. Eu não tenho nem o ensino fundamental completo, que tipo de emprego eu posso arranjar assim? Como eu posso ter um nike se não for roubando?

Eu queria, por mais uma vez que fosse, estar de bem.
Ninguém é capaz de viver sem cair em contradição. Ou será que é? Ser livre para os mais conservantes é viver em vão. Nos fazem acreditar.

Perco fé, perco credo, perco esperança. Já perdi. Sou contradição.

domingo, 6 de março de 2011

Far away.

A minha vida se resume a fazer e desfazer malas. Eu entrei nesse jogo cedo, logo que atingi a maioridade pra ser mais exato. Acho que todo adolescente tem o sonho impetuoso de ser livre, de não ter rotina, de não obedecer e ser livre por aí, incosequentemente. A maioria deseja levar a vida sem roteiro a se seguir de um pássaro, de boa no céu, alto demais pra ser alcançado; Como se os pássaros não tivessem suas obrigações.

Ontem fiz as malas pela última vez. Pego o navio que deveria me levar para o mais longe possível, mesmo que demorasse anos. Não é uma viagem eficaz pra eu me perder dentro de mim mesmo. Após meses embarcado em meio a tempestades, sol escaldante, frio insuportável, calmarias e sorrisos desconhecidos que me encantam de forma estranha, eu sinto como se tivesse navegado mundo afora e desembarcado na porta de casa. Sinto as pessoas das quais desejei fugir em todos os lugares. Que lugar, se não dentro de nós mesmo, condensa tanto sentimento bom e ruim ao mesmo tempo? A gente sente uma fisgada no peito e faz o drama de uma espada atravessando o coração. A gente sente demais.

O meu coração teima em bater, pedindo pra descansar, mas não há descanso quando se é infeliz. Sinto-me incompleto.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Cher Antoine

Os dias em alto mar foram difíceis. Ser um marujo solitário naquele tempo requiria paciência para enfrentar as complicações do resto da tripulação, as incertezas quanto a viver ou morrer, e, o mais importante, estar preparado para ser alvo de suspeitas. E ser um alvo era o que Antoine fazia de melhor. Ele ficava a maior parte do tempo calado, ocupado demais procurando algum lugar naquele corpo em que deus havia lhe encarnado. O mundo era hostil demais e enquanto todos procuravam vencer a brigar sem suar, Antoine não conseguia tirar a cabeça da morena que fora deixada no chalé de madeira em Mayenne.

Havia meses que Antoine não aparecia em casa. A poeira que preenchia o assoalho era resultado de abandono. Tudo parecia fechado desd'a partida de Antoine. Porta-retratos estavam quebrados pelo chão, assim como copos e cigarros apagados antes de terminarem. A única iluminação era, curiosamente, o alerta da secretária eletrônica.

"Cher Antoine, Je suis vraiment desolé mais je ne peux pas partir avec toi. Du 20 au 24 je dois travailler, j'ai 4 jour de congé. Je vais à la campagne, je voyage en train pour le montagnes, c'est un drôle de chemin."

Anna Julia nunca faltara compromissos com Antoine e dessa vez ela tinha estragado os planos. Ele sabia o que aquilo significava: ir pro Rio de Janeiro, a terra natal de Anna Julia, e lá, seguir adiante.Ele sempre dizia que iria embora quando ela não o quisesse mais, porém sempre enalteceu que nunca amaria outra mulher que não ela. No momento ele estava ocupado demais aproveitando o baile, mas o querido Antoine não sabia que todo carnaval tem seu fim. Ele parecia não se importar com isso. Todos se perguntavam:
"De onde vem a calma daquele cara?"

domingo, 19 de dezembro de 2010

Relatos de um quarto esquizofrênico.

Relatos de um apartamento fechado

Ela está preparando o jantar e eu estou acordando. Não sei como contá-la que você existe e muito menos não sei como explicar por que acordei tão tarde já que nem eu mesmo sei como apaguei. Agora o espelho me conta que meses se passaram e estou torcendo para ter deixado de viver algumas coisas.
O som das cigarras me irrita o cérebro que há muito parece ter deixado de trabalhar ao meu favor. Eu não preciso descrever o que se passa pela minha cabeça, pois meus olhos já dizem a verdade. Eu estou enlouquecendo.

O que é a verdade senão tudo aquilo que agarramos com tanta convicção que, se discordada por alguém, nos faz perder a cabeça a ponto de cometer uma loucura, no mínimo, arrependível? Às vezes nossa verdade é ofuscada por nossas mentiras. Eu vivo o dilema de martelar um prego para depois desprendê-lo do lugar por achar que não combina com o ambiente. Eu vivo a mentira de achar que sou dependente dos meus arredores.

O que me tira da cabeça a vontade de morrer é poder tocar no piano as músicas que você mesma me ensinou. Eu sinto como se essa fosse a única coisa que ainda me resta a fazer. Como se fosse a única coisa capaz de manter você comigo. Eu não quero parar de tocar, pois tenho medo que você vá embora. Mas não quero ter você assim tão perto, assim tão longe.

-
Desencarnei num corpo sem coragem
-

Estou vivendo e te deixando morrer. Você é imaginária. E as piores imaginações são aquelas que podem ser tornar verdade e, por conta de nós mesmo, não se tornam.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Circo Voador.

"Está na hora de acordar. Está na hora de ser feliz"
Acordo com a mesma história há anos e estou longe de ser feliz. O circo está lotado de gente infeliz. Na verdade, será possível encontrar por aqui alguém que esboce um sorriso? O do palhaço é pintado, os equilibristas esfriaram tanto a mente para aturarem a altura que ninguém mais atura a altura de suas arrogâncias e o nosso diretor só está pensando na verdinha, seja ela o dinheiro ou a erva de cada dia. Há anos o meu trabalho é alegrar os outros, mas a minha alegria está distante e não há previsão de chegada.

Eu costuma ter um avô e eu o chamava de família. Ele sempre foi o mais perto que eu cheguei de qualquer forma de afeto. Sempre que podia ele me levava ao circo para darmos boas risadas. Ele era um deprimido desde que perdera minha avó e minha mãe, mas eu continuava na mesma. Crianças nunca têm uma boa percepção das coisas, a minha noção de tempo sempre foi esquisita. Parecia que elas tinham saído para ir à padaria, todos os dias eu esperava que chegassem, mas não chegavam. Eu continuava normal, já que uma hora elas chegariam.

No meu aniversário de 7 anos eu não ganhei presente. À noite aconteceria o espetáculo do Dr Kite no Circo Voador e eu só queria um trocado para poder assistir. Meu avô estava apertado e todo o dinheiro da aposentadoria ele gastava com a nossa alimentação e com a bebida dele. Meu avô era álcoolatra, mas ainda sim me amava. Deu-me 5 reais para comprar uma pipoca e um abraço que talvez tenha sido o melhor de toda a minha vida. Ele cheirava a pinga, mas seus olhos exalavam amor. Lágrimas surgiram em seus olhos e ele me mandou para fora.

Quando eu cheguei em casa meu avô não estava lá, apenas a minha vizinha irritante com um papel na mão. Ela abriu o papel e disse em voz alta:
"Meu neto, você não merece um avô tão descuidado. Tenho pancreatite e estou em fase terminal. Espero que um dia você entenda o porquê de eu estar te deixando. É o melhor pra você. E se um dia lágrimas cairem dos seus olhos, faça delas o seu mar para navegar. Não pare de chorar nunca, meu querido, um homem sem sentimentos é um homem ferido"

Meu avô foi um grande homem, mas eu nunca entendi a sua última mensagem para mim. Àquela noite eu fugi de casa, aos prantos, e corri para o circo pois era o único lugar pr'onde eu sabia ir. Comecei a cantar as minhas músicas para sobreviver e as canto até hoje na esperança de que um novo amor me encontre.

Não, ninguém sabe como é abraçar uma pessoa pela última vez e não saber. Só eu. Só eu sei o que eu sinto.

Nem tudo na vida acontece com a gente deseja, mas na ficção podemos dar um jeito. Por isso resolvi terminar a minha história com palavras que nunca foram proferidas:
'Adeus vô, descanse em paz'

sábado, 27 de novembro de 2010

Tempo Livre.

Eu trabalho como colunista de um jornal, faço meu horário, não tenho obrigações ou prazos pois os meus textos são os melhores e sou insubstituível. Não estou me gabando. Na verdade, eu nem gosto disso tudo. Sou infeliz e passava a maior parte do tempo sentando no sofá vendo televisão, e isso continuaria da mesma forma, não fosse meu pai obrigando-me a "ocupar o tempo livre com uma atividade produtiva". Então eu fui pra rua, mesmo sem saber o que aquilo queria dizer. Tempo ocupado, em tese, não é um tempo gasto com produtividade? Eu perdia o tempo da minha vida com textos, livros e filmes. Eu não tinha namorada, não tinha ninguém. O que deveria ser o certo então?

Aprendi a beber, deixei o cabelo crescer, mas não fui trabalhar. O meu novo lar, naquele momento, era o bar, e lá eu conheci muita gente bacana. O vazio ainda me dominava, porém eu podia preenchê-lo com bebida. E foi assim até o dia em que ameaçaram meu expulsar de casa por não estar vivendo a vida nos conformes impostos por eles. Mais uma vez meu pai dizendo merdas que ninguém é capaz de entender.

Vim morar num banco de praça e eu gosto de ficar sentado aqui, matando o meu tempo livre observando as pessoas. Para sobreviver eu preciso escrever no mínimo dois textos por semana, o que resultava na explosão dos meus neurônios. Não tenho mais cabeça pra pensar, não tenho mais voz pra falar, não tenho nem mais ouvidos para ouvir o que os outros têm a dizer. Tudo que me restou foram meus olhos e são com eles que eu tenho por perto o que me impressiona.

Os tempos são difíceis e a minha vida, se não perdida, foi para bem longe ver navios com a desculpa de que ia comprar cigarros. É como comprar um ingresso que dá passagem a minha vida e encontrar, do outro lado da catraca, uma fila que me impede de viver meus sonhos que bem lá no fundo eu nem sei quais são.

Eu passei a observar pessoas compulsivamente e isso é tudo o que me faz bem. Amo observar as intimidades que temos com desconhecidos. Caminhamos na mesma direção e para evitarmos uma colisão, passamos a estudar os movimentos do outro. Por frações de segundos, nossos olhos revelam todo o desespero que pode caber dentro de alguém.
"Qual é o problema de esbarrar em alguém?" - Eu costumava pensar assim.

Não quero mais esbarrar com as pessoas erradas.
O que isso tudo quer dizer? Eu não sei.

domingo, 14 de novembro de 2010

Mardi.

Moro na França há 2 anos e é difícil. Deixei o Brasil por acreditar que lá era impossível viver de arte, mas aqui eu trabalho na rua. Sou jovem, vim pra cá recém-emancipado e agora estou prestes a fazer 21. O dinheiro nunca veio mas está tudo bem, eu nunca soube o que é isso mesmo. Sempre odiei esse papel que nos diz quem tem poder ou não. Ninguém pode escolher ter poder, o poder é que escolhe a pessoa e esse, definitivamente, não me escolheu.
Sobrevivo como posso. Vendo livros com as poesias que eu escrevo, vendo telas que eu pinto e aos finais de semana eu ganho alguns trocados (às vezes muitos, depende da temporada) tocando violão ou o acordeón na praça em frente ao teatro. Foi por lá que eu conheci a mulher que mudou minha vida para um tormento sem fim. Era fim de tarde e o exército inglês tinha ganhado a guerra, o clima estava melancólico por toda a França, nunca entendi esse ódio babaca que têm pelos ingleses, no fundo deveriam estar felizes por mais uma guerra ter acabado, mas o orgulho era maior. Eu estava sentado no banco da praça fumando um cigarro após o café-com-pão que a dona da padaria me oferecia todos os dias. O violão descansava aos meus pés quando a moça sentou-se ao meu lado, ela era mais velha e eu sempre tive essa adoração por mulheres mais velhas.
A voz era rouca, provavelmente devido a tantos cigarros, e me pedia para tocar uma música nova, que ela não conhecesse. Toquei todo o repertório que eu sabia.
- Merci beacoup, garçon, très bien.
Ela me disse o seu nome. Amélie. O nome me lembrava um filme que eu havia visto na infância com a minha irmã. Senti-me terrivelmente nostálgico, mas lembrei que minha irmã jamais gostaria de me ver daquela maneira. Ela sempre me dizia sábias palavras e em todos os momentos problemáticos ela estava bem na minha frente para esbofetear a minha cara.
Amélie me ofereceu um chá e eu pensei estar na Inglaterra. Fui dar uma volta em Penny Lane, vi um barbeiro mostrando, honrado, as fotos de sua família. Estive em muitos lugares, mas quando acordei o banco da praça estava vazio e eu jogado a esmo.
Nunca entendi o que aconteceu. E por enquanto eu escrevo cartas e poesias que ninguém vai ler.
Sou órfão do amor e da arte. E suplico para que todas as pessoas de coração partido concordem comigo: Precisamos aprender que as coisas boas não estão nas pequenas nem nas grandes coisas da vida. Elas, no fundo, estão nas pessoas que passam por nós e reduzem os nossos sentimentos a pó.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Acidez.

Ali estava eu, na plateia, chapado de alguma coisa que eu nem sei o que era. Todos os artistas circenses caíam de tantos rir e eu junto ria, confuso. Demorou até eu perceber que eu era a única pessoa na plateia, exceto pelo cara que parecia um morcego que estava o meu lado. Ele me olhava, ele me julgava.
- Ei homem morcego, não está na hora de salvar o mundo?
- Há muito tempo que parei de tentar salvar o mundo.
- Por quê?
- Ninguém nunca quis entrar na brincadeira. Uma hora a gente enjoa de bater sempre na mesma tecla, ainda mais quando a gente tá desacompanhado. Todo mundo tá preocupado com o lucro pessoal, todo mundo quer mais dinheiro, todo mundo quer mais parquímetro. Sinceramente, eu tenho medo de um dia tentarem privatizar o oxigênio. Imagine só: Indústria do oxigênio. Não estamos longe disso.

O homem morcego pegou um ônibus, o qual ele mesmo dirigiu, dizem que era um ônibus amarelo, daqueles de escola. Foi para a Costa Sul ver o mar, procurar as pequenas belezas que existem em cada grão de areia do mundo esquecido: O mundo natural. Você podia perguntar o que ele estava fazendo quando o visse às quatro da tarde correndo pela praia trajando um terno vermelho e uma gravata verde que exalava fumaça. A sua resposta sempre seria:
- Eu vou pra algum canto qualquer, procurar algo pelo qual vale a pena viver. Eu vou viver o amor e morrer quando dele enjoar. Pretendo largar toda essa vida cibernética e modernéti que as pessoas andam levando hoje em dia. Eu não gosto dessas paradas não, eu sinto como se tivesse que carregar o peso do mundo nos ombros só ao entrar no twitter e ver comentários superficiais de garotas de 13 anos de idade que só querem se declarar para o ídolo juvenil do momento; Ídolo tão importante para elas que em dentro de 5 meses será substituído por outro. As pessoas estão esquecendo de pensar. Eu me pergunto como pretendem viver sem pensar.

Uma vez disse o palhaço do circo: "O homem morcego sempre tem razão".
No circo parece que a gente entra em outra realidade. Por lá a gente não precisa ser quem a gente é. E a melhor coisa do mundo é ser palhaço, é dar alegria, é usar ácido e se perder em meio a tantas cores no céu de diamantes. A boa coisa da vida é você sair pra procurar o homem morcego pra depois de 30 anos se decepcionar e descobrir que o homem morcego é um estado adormecido dentro de você. O homem morcego é o estado da razão.

sábado, 6 de novembro de 2010

Coração de pirata.

O barulho ensurdecedor a me acordar àquela manhã era ela, perturbada como sempre, ouvindo as músicas francesas, barulhentas e habituais que eu insisto em não aprender o nome. O que importa era a presença que eu tinha próximo a mim. Queria que pudesse ficar ali o resto do dia, mas logo ela teria ido e as próximas 13 horas seriam tão longas quanto a eternidade que estou fadado a passar, a sete palmos do chão, sendo comida de verme.

Levantei. O rádio ligado na sala, sozinho, parecendo gritar para que alguém o ouvisse. Às vezes gosto de imaginar que os objetos sentem as mesmas coisas que eu. Da cozinha, saía a fumaça. Não sabia se vinha do Marlboro Light que ela fumava ou dos ovos gritando na frigideira. Ela me encarava, as tatuagens pareciam combinar com os cabelos loiros, causando um exercício novo para os meus olhos, quase insuportável. Encará-la era uma tarefa difícil, uma simples troca de olhar resultava numa noite sem sono e eu gostava daquilo, gostava de doar toda a minha mente a ela.

Eu vivia em um devaneio, um delírio qualquer da mente de um louco que pensa que faz algum sentido ou nexo. Por enquanto eu tento não pensar no problema de fazer sentido, já que eu posso acordar com as coisas que mais amo no mundo: cigarros, ovos mexidos e Beatriz. Dizer 'tento não pensar' é até errado quando sei que sempre vou perder os pensamentos ao ouvir:
- Bom dia, dorminhoco.

domingo, 31 de outubro de 2010

Nowhere Love. Parte 4

De certo eu devia ter corrido quando vi o Harry Haller vindo na minha direção. Continuei por vontade.

Vontade.

A gente costuma perder as estribeiras por vontade. Continuei sim e só não admito porque não sei do que aquela vontade se tratava. Era diferente de desejo, tinha uma temporalidade diferente. Eu sempre quis ser atemporal. E eu sei que muita gente morre de (por) vontade. E naquela noite eu precisava encontrar alguma forma de morrer.

- Tá sozinha? – Ele era mais bonito de perto. Elegante, um coroa pegável. Um George Clooney da vida, sabe?

- To esperando uma pessoa. – É claro que eu não esperava ninguém, mas eu não deveria ser tão oferecida. Fui criada em família católica e por conta disso eu carrego comigo uns valores tão estúpidos quanto a minha imagem-e-semelhança.

- Você não se importa de eu esperar contigo, não é? Eu estou esperando o meu filho... Aliás, ali vem ele...

O garoto que entrou pela porta do teatro era talvez o meu sonho de consumo ou algo do tipo. Tinha a minha idade e, mesmo em 1995, ele ainda tinha esperanças de um renascimento do Grunge. Ele era, talvez, o meu Kurt Cobain perdido. Não pude deixar de evitar aquilo. Pai e filho, juntos, tão lindos.

- Desculpa, pai, sabe cumé né, a mãe tava enchendo a merda do saco pra eu catar as guimbas lá no meu quarto. – Ele era estranho, de modo que todas as suas informalidades pareciam-lhe formais. – Quem é a tua amiga?

Corei.

- Aaah, essa é a... Bom, qual é o seu nome? O meu é Álvaro e o do meu filho é Felipe – Felipe? Estava bom demais pra ser verdade, não? Por que diabos um nome tão ruim?

- Ana Luíza – Menti. Algo me impediu de dizer meu nome, deve ter sido o desnorteamento.

- Bem AnaLu... Posso te chamar assim? – O novo Felipe tinha um sorriso exageradamente amarelado. Provavelmente cigarros. – Eu e meu pai sempre vamos a um pub que tem aqui por perto após as peças. Não quer ir conosco não?

Aceitei o convite, pensando em fidelidade.

Fidelidade.

Muita coisa acontecera em pouco tempo, mas o meu namoro com o Felipe ainda existia e eu não fui fiel. Fidelidade é importante em relacionamentos, não? Não fui fiel a ele. Às vezes me pergunto se fui fiel a mim mesma.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Mais um soldado.

Seria absurdo afirmar que naquele momento a solidão era a única coisa que me completava, mas era verdade. Os dias que se passavam era tão conturbados que por mais que eu fugisse todos os dias para o pier, eu não conseguia notar toda a beleza que havia no mar. Era a mesma coisa que estar com os olhos vendados e assim eu vinha vivendo desde que eu tinha conhecido aquela menina.

A menina que um dia fora capaz de fazer meus pés deixarem o chão para me alçar involuntariamente em um voo sem direção, tornara-se ruim, mas só perdendo tudo é que eu consigo perceber o valor imensurável que possuem. Eu voava e a minha única preocupação era a de me manter longe do solo (talvez por querer aquela sensação pra sempre, talvez pelas más experiências com colisões).

O ser humano está fadado a ceder quando o cansaço - físico ou mental - começa a corroer pouco a pouco as entranhas, trazendo aquele calor fúnebre para cada pedaço do corpo (até mesmo os mais ínfimos). Eu estava cansado de ser mais um soldado marchando por aí. O calor me congelava (acho que quando a dor é muita, o nosso corpo se torna vazio, sem vida, frio) e eu precisava apagá-lo.
Joguei-me, desejando nunca mais acordar.
Afoguei-me, desejando pela última vez me encontrar.

O céu só é o limite pr'aqueles que têm medo de voar.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Diabetes.

Romeu àquela noite, de frente pra TV, tentava assistir o Pôquer. Nunca fora fã de jogos de cartas, mas sempre fora um cara de fases. Numa dessas fases, apaixonou-se perdidamente, e talvez tenha sido a melhor fase da sua vida, a que mais durou, a que mais acrescentou-lhe algo. Mas depois de 15 anos, o fim chegou, por mais que Romeu fizesse, de propósito, o caminho tornar-se o mais sinuoso possível.

Romeu, velho e carcomido pelo tempo, arrepende-se do que não fez quando jovem. O arrependimento é clichê, já que sempre desejou morrer de amor e a paixão por Julieta nunca tenha sido suficiente. Ninguém jamais foi o suficiente para satisfazer Romeu, mas ele aprendeu a aceitar a vida como é. Poucos são aqueles que encontram um amor, continuam saudáveis e morrem com ele ao lado.
Aprendeu toda a relatividade que há na felicidade e que o amor não existe. Pra ele, o amor só existe na cabeça das pessoas e a amnésia constantemente põe fim nele. Romeu sempre desejou que o Alzheimer levasse embora as suas preocupações e angústias, mas este só faz o trabalho de tomar pra si o que há de bom nas pessoas.

Aqui jaz um triste palhaço - Na fase atual, Romeu só pensa em como será a sua morte. Olha para o seu fim de forma bem-humorada, ja que nunca foi bom com palavras a ponto de escrever um Haicai. Nunca foi bom em nada. Portanto, toda noite pede para Julieta sussurrar em seus ouvidos o quão importante ele é e foi. Julieta, com doçura, age como se amasse um homem doente. Julieta continua sendo doce, porém a doença que mais aflige Romeu cria a maior mentira do mundo para Julieta. Romeu agora é diabético.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Bons dias.

Eu entro e os cachorros latem como se vissem um estranho invadindo a casa pela porta da frente. Correm até mim, ferozes, mas logo se distraem com pássaros que voam e bebericam água nas poças. Eu nunca confiei muito nesse papo sobre a lealdade dos cães, eu sempre preferi essa distração habitual onde eles se perdem, assim como eu me perco, assim como eu acho que todas as pessoas devem ser perder por mais orientadas que estejam.

Os móveis na sala não são mais de acaju, tudo mudou e as duas semanas que se passaram causam-me impacto de dois anos. Prendo a respiração ao passar por aqui; não gosto dos porta-retratos expondo fotos felizes, suas e de outras pessoas.
No velho triturador de papel:


Enquanto respirar
o vento que leva
e Eu quiser morrer
sem você lá ou aqui
pois conosco,
nada
nunca irá
além do
velho erro que é
amar alguém.


Eu ainda lembro de quando escrevi, deitado na cama, contigo ao lado mexendo no meu cabelo e contando histórias engraçadas pra me desconcentrar. Mas agora o texto está desfigurado e tosco, agora quer dizer outra coisa completamente diferente.
Eu às vezes acho que seria capaz de sentir arrependimento de todos os nossos segundos juntos, mas eu ainda não tenho coragem de levar as minhas coisas. E quando eu pegar o meu travesseiro, perguntarei-me o porquê de poder te imaginar aqui comigo e não poder te ter. E eu também vou me perguntar aonde foi que eu errei.

domingo, 29 de agosto de 2010

Velhice.

Estou no carro, acompanhado do meu filho que dirige depressa, como se quisesse se enxergar livre de um peso, que tanto o incomoda, o mais rápido possível. Age como se eu não soubesse. Teu semblante não me engana, filho. Pr'onde foram as aulas de teatro que paguei quando tu era piá? Nesses momentos mais intensos nem o melhor dos atores consegue pensar em uma atuação que convença.

Chegamos ao lugar prometido. Essa é a baliza mais longa que já vi, cada toque no volante equivale a horas que na verdade são frações dos segundos que tiro pra pensar. Vejo tudo, mas não enxergo nada.

Envelhecer tem sido uma merda desde o dia em que me olhei no espelho, pela manhã e encontrei o primeiro fio de cabelo branco na cabeça. Desde então, venho me tornando inútil em parcelas. A cada ano fui perdendo virtudes diferentes. Hoje não acordo cedo, nem trabalho, estudo ou namoro. Não tenho amores ou pernas pra correr.

A tarde chega e me toma nos braços, obrigando-me a me esforçar para não demonstrar os piores dos meus sentimentos. Esse lugar não é dos piores, mas passa uma falsa ideia de alegria que não me agrada. esse gramado verde, essa música clássica ecoando ao longe e essas paredes brancas mal pintadas não me trazem paz, já que são tão melancólicos quanto eu.

É estranho ser velho, a todo momento você sente que vai morrer, mesmo que quando a tua hora tá chegando tu tem a confirmação; é a velha história do teu filme que passa, e isso é verdade. É verdade e a tua alma dói de tanto que tu ri dos teus momentos. No meu caso ela chora, não por tristeza e sim por arrependimento. Arrepende-se de não ter feito todas aquelas tatuagens que eu tanto quis, de não ter apostado em todas aquelas coisas que poderiam ter dado muito certo. Arrepende-se por só agora perceber que viver pra trabalhar é diferente de viver pra trabalhar. Continua se arrependendo por não ter sofrido por mais amores.
O ruim de ser velho é andar tão próximo da morter a ponto d'ela chegar a qualquer momento, em silêncio, e você não perceber. E, agora que morro, sei que o ruim de ser velho é morrer com raiva do teu filho por ele ter te jogado em um asilo.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Nowhere Love. Parte 3

A peça era uma modernização da história d’O lobo da Estepe, de Hermann Hesse. Como eu já tinha lido aquele livro inúmeras vezes, resolvi ficar por lá só pra ficar imersa em pensamentos. Eu estava atordoada, cansada de sair por aí pedindo explicação. Eu tinha 16 anos e parecia que já tinha vivido uns 40, tudo culpa de algumas conversas mal resolvidas e insuficiência de confiança. Afinal, pra onde foi todo aquele plano de ficarmos bem? No amor tem muito disso; a gente começa pensar que já viveu tanto, de modo que começamos a fazer coisas estúpidas, sem pensar. E quando paramos pra pensar, além da morte, faz sentido, porém basta fechar os olhos que a vontade passa. Sempre que fecho os olhos, vejo o Felipe.
Era impossível concentrar-me nos meus pensamentos por diversos fatores. Um, tinha um casal quase se comendo na minha frente e aquilo estava me emputecendo pra valer. Fazia eu me lembrar toda aquela parada que acontecera com Felipe. Dois, os seguranças do teatro estavam chamando a atenção do casal e aquilo me emputecia mais ainda, pois eu tenho certeza que eles não eram tão retardados a ponto de realmente se comer. Algumas pessoas precisam ter noção do ridículo. E o terceiro fator, e o que mais me deixava aflita, era ator principal, que interpretava o depressivo Harry Haller, que não parava de lançar olhares para mim.
Ao fim da peça, os atores anunciaram que estariam tirando fotos e fazendo outras coisas que atores fazem ao término de peças. Quem se interessasse deveria sair pela saída de emergência. Como eu não estava interessada naquela merda toda, saí pela mesma porta que entrei.
Pro meu azar, todos do teatro resolveram cumprimentar os atores.
“Hei, dá licença. Eu quero subir”. Eu falava, em vão.
Acabei indo parar em frente à saída de emergência. Fui falar com os atores. O Harry Haller ainda não tinha tirado os olhos de mim.

domingo, 1 de agosto de 2010

Nowhere Love. Parte 2

Saí da casa de Felipe com os sentimentos transbordando pelos olhos. Eu tinha certeza que aquela noite seria longa. Corri pela rua, vendo tudo que não devia ver. As vielas da cidade cheiravam à morte fresca, sexo fresco, ácido fresco, álcool fresco. Desde 1989, quando eu tinha cerca de 10 anos, a cidade já era assim, perdida. Eu sempre me perguntei quantas pessoas morriam, à noite, no centro da cidade do Rio de Janeiro. E não havia pesquisas que me explicassem isso.
Por fim, esbarrei em um cartaz que dizia: “Die lüge – A mentira”. Era o anúncio de uma peça. Provavelmente era mais uma daquelas peças idiotas, sem conteúdo e com atores tão péssimos quanto os que atuam em ‘Malhação’. Mas quem sou eu para criticar? Senti-me atraída pela peça apenas pelo nome em Alemão. Decidi que assistiria. Me arrependi.
- Uma inteira, por favor. – A moça que vendia os bilhetes tinha o rosto simpático, mas as rugas revelavam um sofrimento no passado. Resolvi ficar quieta.
- Inteira, tem certeza? Você me parece jovem, menina. – Eu sabia que ela era simpática. Estava fazendo isso tudo só para eu pagar menos. Mas eu não estava com cabeça pra isso.
- Tudo bem, moça. Quero uma inteira mesmo. – Tentei sorrir. Falhei.
- Então tudo bem, menina. Eu só tenho ingressos para a primeira fileira. Algum problema?
- Nenhum.

A fachada do teatro era-me familiar. Acho que era ali que meu avô me levava quando eu era mais nova, mas naquela época as coisas eram diferentes. Drogados não se faziam presentes, espalhados pela rua, a pintura ainda tinha cores vívidas e não aquele cinza sujo pelo tempo, não havia marcas de sangue no chão, nem agulhas pela calça.
Entrei.
Coragem.
A segunda virtude, pra mim, é a coragem. Às vezes tudo que precisamos é um pouco de coragem, não importa se esse encorajamento sai de nosso interior ou se ela vem como a ajuda que precisamos, de um anjo da guarda. A vida é um jogo de azar e o vencedor é sempre aquele que tem a maior cara de pau.
Vale ressaltar que naquela noite eu descobri que autoconfiança em demasia pode prejudicar.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Nowhere Love. Parte 1

- Ta escuro lá fora. – Eu estava assustada, inegável. A essa altura do campeonato eu não sabia do que o Felipe era capaz.

- E daí, Fernanda? Desde quando eu me importo com isso? Sai agora! – A voz dele estava pesada. Felipe não era mais o mesmo havia algum tempo. Os meses decorridos após ele por na cabeça que eu o estava traindo passavam em câmera lenta. E em câmera lenta eu sentia todo o comportamento grosseiro do Felipe me matando lentamente. Por vezes ele deixa esse assunto de lado, como se não se existisse. Mas sempre volta a me perguntar sobre o Gustavo.

- Por que você continua com isso? Você sabe que o Gustavo e eu somos só amigos de infância, por isso somos tão próximos.

Felipe bufava de raiva. Apagou o cigarro na parede e me olhou com raiva. Por um momento achei que morreria aquela noite.

- Você me dá nojo. Mete o pé antes que eu mude o meu alvo. – Socou a parede com ar de quem estava tentando se conter. – Eu gosto muito de você. Não quero te machucar.

Paciência.

A primeira virtude precisa para manter uma relação é paciência, eu acho. Pelo menos na minha mente de menina adolescente fazia sentido, na época.

Eu aprendi a ser paciente com o tempo. Eu costumava esperar um sentimento igual ao que eu dava, mas percebi que é nesse ponto que pecamos. Eu vivia interpretando papeis para carregar mentiras que faziam sentido apenas na minha mente. Mudanças e permanências; seja o que for, não é igual. O amor não é igual. O amor não é pra sempre.