terça-feira, 17 de maio de 2011
Recortes do tempo.
terça-feira, 26 de abril de 2011
Deewa, o profeta. Pt 2 - Adaptação.
Foi por puro instinto que Rodrigo decidiu sair Rio de janeiro afora atrás do seu amigo. O campo aberto onde Felipe – agora conhecido como Deewa - fora encontrado, não era lá tão afastado de todos assim. Afastado, sim, porém não por distância e sim por despercebimento. Após 15 ou 20 minutos de caminhada por uma trilha de lamacenta, perto de uma das rodovias mais importantes da cidade, lá estava um lugar inacreditavelmente... diferente de todo aquele concreto.
O apartamento de Deewa era um ambiente estranho, úmido e apertado habitado por ninguém mais além do próprio. Na sala, sobre a mesa de centro, pairava uma escultura de coruja que se dizia ser o resultado de mais uma de suas fases. Deewa, tomado por um espírito estranho saído de um programa de TV (na época em que ele ainda não achava que a televisão era uma ditadura), entrou para uma doutrina que cultuava as corujas como as imagens de maior sabedoria no mundo, maior mesmo que todas aquelas imagens indianas que transmitem paz, espiritualidade, etc. Ninguém nunca soube o nome desse culto, ninguém soube por que ele deixou de lado, ninguém sabe por que diabos ele resolveu participar daquilo por 30 minutos que fosse.
Quarto > armário > porta trancada > revirada total pelo quarto > chave > terceira gaveta > cuecas > meias > escritos.
Os textos tinham todo o mesmo caráter, mostravam a vontade que Deewa tinha de desapegar-se das coisas materiais que tanto lhe incomodavam. Curiosamente, elas não tinham ordem lógica ou cronológica. Rodrigo, confuso, não sabia por onde começar e encontrava-se mais perdido que qualquer outra pessoa que fosse ler os manuscritos, pois ele, no papel de bom amigo, sabia que Deewa era um cara organizado. No momento, a qualidade de organização não se fazia presente.
Algum lugar perto da Costa Verde, algum dia do mês de maio de 2006.
Escrevo do lugar mais deserto onde já estive. Não sei nem ao menos onde estou e perdi meu relógio-bússola-astrolábio-qualqueroutramerda (paguei 1000 reais nisso) há uns quatro dias, desde então venho sem saber o horário, o dia e a direção pr'onde vou. Continuo, pois sei que isso não é razão pra me perder.
A comida está racionada e isso faz com que eu me sinta bem. Sinto-me livre e assim vou sendo até mais uma vez encontrar o caminho de volta pra casa. Cedo ou tarde ele aparece. Perdido na selva eu me sinto um homem melhor, mesmo sentindo fome e sede.
Não sei de nada. Por aqui não existe certo ou errado, dólar ou euro, capitalismo ou comunismo, não existe forma de compreender o que é esse lugar. É estranho, mas aqui pode ser um mundo onde eu criaria todas as regras. E aqui, acima de tudo, o amor EXISTIRIA, pois cansado estou daqueles que, irritados e perdidos nas próprias frustrações, declaram não serem capazes de se acostumarem a ele.
Tudo é tão simples: paixão > paixão > cegueira parcial > paixão > cegueira completa > desilusão > sofrimento. Ou então, paixão > amor > anos > velhice > morte feliz, com alguém ao lado.
Qual a dificuldade de escolherem de vez algum dos dois? Adaptação é o problema, pois tudo é motivo para o fim: decepções, traições, mentiras, etc.
O meu amor mais importante chegou ao fim por causa de distância, na época disseram-me que não existe amor sem beijos. Pergunto-me todos os dias, desde então, se o canto de um pássaro passar a ser menos bonito se ninguém está por perto para escutá-lo.
Não pisarás em terra deewanica se desprovido de adaptação fores.
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Deewa, o profeta. Pt 1 - mudanças geram mudanças.
sexta-feira, 25 de março de 2011
Contradição.
domingo, 6 de março de 2011
Far away.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Cher Antoine
domingo, 19 de dezembro de 2010
Relatos de um quarto esquizofrênico.
Ela está preparando o jantar e eu estou acordando. Não sei como contá-la que você existe e muito menos não sei como explicar por que acordei tão tarde já que nem eu mesmo sei como apaguei. Agora o espelho me conta que meses se passaram e estou torcendo para ter deixado de viver algumas coisas.
O som das cigarras me irrita o cérebro que há muito parece ter deixado de trabalhar ao meu favor. Eu não preciso descrever o que se passa pela minha cabeça, pois meus olhos já dizem a verdade. Eu estou enlouquecendo.
O que é a verdade senão tudo aquilo que agarramos com tanta convicção que, se discordada por alguém, nos faz perder a cabeça a ponto de cometer uma loucura, no mínimo, arrependível? Às vezes nossa verdade é ofuscada por nossas mentiras. Eu vivo o dilema de martelar um prego para depois desprendê-lo do lugar por achar que não combina com o ambiente. Eu vivo a mentira de achar que sou dependente dos meus arredores.
O que me tira da cabeça a vontade de morrer é poder tocar no piano as músicas que você mesma me ensinou. Eu sinto como se essa fosse a única coisa que ainda me resta a fazer. Como se fosse a única coisa capaz de manter você comigo. Eu não quero parar de tocar, pois tenho medo que você vá embora. Mas não quero ter você assim tão perto, assim tão longe.
-
Desencarnei num corpo sem coragem
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Estou vivendo e te deixando morrer. Você é imaginária. E as piores imaginações são aquelas que podem ser tornar verdade e, por conta de nós mesmo, não se tornam.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Circo Voador.
Acordo com a mesma história há anos e estou longe de ser feliz. O circo está lotado de gente infeliz. Na verdade, será possível encontrar por aqui alguém que esboce um sorriso? O do palhaço é pintado, os equilibristas esfriaram tanto a mente para aturarem a altura que ninguém mais atura a altura de suas arrogâncias e o nosso diretor só está pensando na verdinha, seja ela o dinheiro ou a erva de cada dia. Há anos o meu trabalho é alegrar os outros, mas a minha alegria está distante e não há previsão de chegada.
Eu costuma ter um avô e eu o chamava de família. Ele sempre foi o mais perto que eu cheguei de qualquer forma de afeto. Sempre que podia ele me levava ao circo para darmos boas risadas. Ele era um deprimido desde que perdera minha avó e minha mãe, mas eu continuava na mesma. Crianças nunca têm uma boa percepção das coisas, a minha noção de tempo sempre foi esquisita. Parecia que elas tinham saído para ir à padaria, todos os dias eu esperava que chegassem, mas não chegavam. Eu continuava normal, já que uma hora elas chegariam.
No meu aniversário de 7 anos eu não ganhei presente. À noite aconteceria o espetáculo do Dr Kite no Circo Voador e eu só queria um trocado para poder assistir. Meu avô estava apertado e todo o dinheiro da aposentadoria ele gastava com a nossa alimentação e com a bebida dele. Meu avô era álcoolatra, mas ainda sim me amava. Deu-me 5 reais para comprar uma pipoca e um abraço que talvez tenha sido o melhor de toda a minha vida. Ele cheirava a pinga, mas seus olhos exalavam amor. Lágrimas surgiram em seus olhos e ele me mandou para fora.
Quando eu cheguei em casa meu avô não estava lá, apenas a minha vizinha irritante com um papel na mão. Ela abriu o papel e disse em voz alta:
"Meu neto, você não merece um avô tão descuidado. Tenho pancreatite e estou em fase terminal. Espero que um dia você entenda o porquê de eu estar te deixando. É o melhor pra você. E se um dia lágrimas cairem dos seus olhos, faça delas o seu mar para navegar. Não pare de chorar nunca, meu querido, um homem sem sentimentos é um homem ferido"
Meu avô foi um grande homem, mas eu nunca entendi a sua última mensagem para mim. Àquela noite eu fugi de casa, aos prantos, e corri para o circo pois era o único lugar pr'onde eu sabia ir. Comecei a cantar as minhas músicas para sobreviver e as canto até hoje na esperança de que um novo amor me encontre.
Não, ninguém sabe como é abraçar uma pessoa pela última vez e não saber. Só eu. Só eu sei o que eu sinto.
Nem tudo na vida acontece com a gente deseja, mas na ficção podemos dar um jeito. Por isso resolvi terminar a minha história com palavras que nunca foram proferidas:
'Adeus vô, descanse em paz'
sábado, 27 de novembro de 2010
Tempo Livre.
Aprendi a beber, deixei o cabelo crescer, mas não fui trabalhar. O meu novo lar, naquele momento, era o bar, e lá eu conheci muita gente bacana. O vazio ainda me dominava, porém eu podia preenchê-lo com bebida. E foi assim até o dia em que ameaçaram meu expulsar de casa por não estar vivendo a vida nos conformes impostos por eles. Mais uma vez meu pai dizendo merdas que ninguém é capaz de entender.
Vim morar num banco de praça e eu gosto de ficar sentado aqui, matando o meu tempo livre observando as pessoas. Para sobreviver eu preciso escrever no mínimo dois textos por semana, o que resultava na explosão dos meus neurônios. Não tenho mais cabeça pra pensar, não tenho mais voz pra falar, não tenho nem mais ouvidos para ouvir o que os outros têm a dizer. Tudo que me restou foram meus olhos e são com eles que eu tenho por perto o que me impressiona.
Os tempos são difíceis e a minha vida, se não perdida, foi para bem longe ver navios com a desculpa de que ia comprar cigarros. É como comprar um ingresso que dá passagem a minha vida e encontrar, do outro lado da catraca, uma fila que me impede de viver meus sonhos que bem lá no fundo eu nem sei quais são.
Eu passei a observar pessoas compulsivamente e isso é tudo o que me faz bem. Amo observar as intimidades que temos com desconhecidos. Caminhamos na mesma direção e para evitarmos uma colisão, passamos a estudar os movimentos do outro. Por frações de segundos, nossos olhos revelam todo o desespero que pode caber dentro de alguém.
"Qual é o problema de esbarrar em alguém?" - Eu costumava pensar assim.
Não quero mais esbarrar com as pessoas erradas.
O que isso tudo quer dizer? Eu não sei.
domingo, 14 de novembro de 2010
Mardi.
Sobrevivo como posso. Vendo livros com as poesias que eu escrevo, vendo telas que eu pinto e aos finais de semana eu ganho alguns trocados (às vezes muitos, depende da temporada) tocando violão ou o acordeón na praça em frente ao teatro. Foi por lá que eu conheci a mulher que mudou minha vida para um tormento sem fim. Era fim de tarde e o exército inglês tinha ganhado a guerra, o clima estava melancólico por toda a França, nunca entendi esse ódio babaca que têm pelos ingleses, no fundo deveriam estar felizes por mais uma guerra ter acabado, mas o orgulho era maior. Eu estava sentado no banco da praça fumando um cigarro após o café-com-pão que a dona da padaria me oferecia todos os dias. O violão descansava aos meus pés quando a moça sentou-se ao meu lado, ela era mais velha e eu sempre tive essa adoração por mulheres mais velhas.
A voz era rouca, provavelmente devido a tantos cigarros, e me pedia para tocar uma música nova, que ela não conhecesse. Toquei todo o repertório que eu sabia.
- Merci beacoup, garçon, très bien.
Ela me disse o seu nome. Amélie. O nome me lembrava um filme que eu havia visto na infância com a minha irmã. Senti-me terrivelmente nostálgico, mas lembrei que minha irmã jamais gostaria de me ver daquela maneira. Ela sempre me dizia sábias palavras e em todos os momentos problemáticos ela estava bem na minha frente para esbofetear a minha cara.
Amélie me ofereceu um chá e eu pensei estar na Inglaterra. Fui dar uma volta em Penny Lane, vi um barbeiro mostrando, honrado, as fotos de sua família. Estive em muitos lugares, mas quando acordei o banco da praça estava vazio e eu jogado a esmo.
Nunca entendi o que aconteceu. E por enquanto eu escrevo cartas e poesias que ninguém vai ler.
Sou órfão do amor e da arte. E suplico para que todas as pessoas de coração partido concordem comigo: Precisamos aprender que as coisas boas não estão nas pequenas nem nas grandes coisas da vida. Elas, no fundo, estão nas pessoas que passam por nós e reduzem os nossos sentimentos a pó.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Acidez.
- Ei homem morcego, não está na hora de salvar o mundo?
- Há muito tempo que parei de tentar salvar o mundo.
- Por quê?
- Ninguém nunca quis entrar na brincadeira. Uma hora a gente enjoa de bater sempre na mesma tecla, ainda mais quando a gente tá desacompanhado. Todo mundo tá preocupado com o lucro pessoal, todo mundo quer mais dinheiro, todo mundo quer mais parquímetro. Sinceramente, eu tenho medo de um dia tentarem privatizar o oxigênio. Imagine só: Indústria do oxigênio. Não estamos longe disso.
O homem morcego pegou um ônibus, o qual ele mesmo dirigiu, dizem que era um ônibus amarelo, daqueles de escola. Foi para a Costa Sul ver o mar, procurar as pequenas belezas que existem em cada grão de areia do mundo esquecido: O mundo natural. Você podia perguntar o que ele estava fazendo quando o visse às quatro da tarde correndo pela praia trajando um terno vermelho e uma gravata verde que exalava fumaça. A sua resposta sempre seria:
- Eu vou pra algum canto qualquer, procurar algo pelo qual vale a pena viver. Eu vou viver o amor e morrer quando dele enjoar. Pretendo largar toda essa vida cibernética e modernéti que as pessoas andam levando hoje em dia. Eu não gosto dessas paradas não, eu sinto como se tivesse que carregar o peso do mundo nos ombros só ao entrar no twitter e ver comentários superficiais de garotas de 13 anos de idade que só querem se declarar para o ídolo juvenil do momento; Ídolo tão importante para elas que em dentro de 5 meses será substituído por outro. As pessoas estão esquecendo de pensar. Eu me pergunto como pretendem viver sem pensar.
Uma vez disse o palhaço do circo: "O homem morcego sempre tem razão".
No circo parece que a gente entra em outra realidade. Por lá a gente não precisa ser quem a gente é. E a melhor coisa do mundo é ser palhaço, é dar alegria, é usar ácido e se perder em meio a tantas cores no céu de diamantes. A boa coisa da vida é você sair pra procurar o homem morcego pra depois de 30 anos se decepcionar e descobrir que o homem morcego é um estado adormecido dentro de você. O homem morcego é o estado da razão.
sábado, 6 de novembro de 2010
Coração de pirata.
Levantei. O rádio ligado na sala, sozinho, parecendo gritar para que alguém o ouvisse. Às vezes gosto de imaginar que os objetos sentem as mesmas coisas que eu. Da cozinha, saía a fumaça. Não sabia se vinha do Marlboro Light que ela fumava ou dos ovos gritando na frigideira. Ela me encarava, as tatuagens pareciam combinar com os cabelos loiros, causando um exercício novo para os meus olhos, quase insuportável. Encará-la era uma tarefa difícil, uma simples troca de olhar resultava numa noite sem sono e eu gostava daquilo, gostava de doar toda a minha mente a ela.
Eu vivia em um devaneio, um delírio qualquer da mente de um louco que pensa que faz algum sentido ou nexo. Por enquanto eu tento não pensar no problema de fazer sentido, já que eu posso acordar com as coisas que mais amo no mundo: cigarros, ovos mexidos e Beatriz. Dizer 'tento não pensar' é até errado quando sei que sempre vou perder os pensamentos ao ouvir:
- Bom dia, dorminhoco.
domingo, 31 de outubro de 2010
Nowhere Love. Parte 4
De certo eu devia ter corrido quando vi o Harry Haller vindo na minha direção. Continuei por vontade.
Vontade.
A gente costuma perder as estribeiras por vontade. Continuei sim e só não admito porque não sei do que aquela vontade se tratava. Era diferente de desejo, tinha uma temporalidade diferente. Eu sempre quis ser atemporal. E eu sei que muita gente morre de (por) vontade. E naquela noite eu precisava encontrar alguma forma de morrer.
- Tá sozinha? – Ele era mais bonito de perto. Elegante, um coroa pegável. Um George Clooney da vida, sabe?
- To esperando uma pessoa. – É claro que eu não esperava ninguém, mas eu não deveria ser tão oferecida. Fui criada em família católica e por conta disso eu carrego comigo uns valores tão estúpidos quanto a minha imagem-e-semelhança.
- Você não se importa de eu esperar contigo, não é? Eu estou esperando o meu filho... Aliás, ali vem ele...
O garoto que entrou pela porta do teatro era talvez o meu sonho de consumo ou algo do tipo. Tinha a minha idade e, mesmo em 1995, ele ainda tinha esperanças de um renascimento do Grunge. Ele era, talvez, o meu Kurt Cobain perdido. Não pude deixar de evitar aquilo. Pai e filho, juntos, tão lindos.
- Desculpa, pai, sabe cumé né, a mãe tava enchendo a merda do saco pra eu catar as guimbas lá no meu quarto. – Ele era estranho, de modo que todas as suas informalidades pareciam-lhe formais. – Quem é a tua amiga?
Corei.
- Aaah, essa é a... Bom, qual é o seu nome? O meu é Álvaro e o do meu filho é Felipe – Felipe? Estava bom demais pra ser verdade, não? Por que diabos um nome tão ruim?
- Ana Luíza – Menti. Algo me impediu de dizer meu nome, deve ter sido o desnorteamento.
- Bem AnaLu... Posso te chamar assim? – O novo Felipe tinha um sorriso exageradamente amarelado. Provavelmente cigarros. – Eu e meu pai sempre vamos a um pub que tem aqui por perto após as peças. Não quer ir conosco não?
Aceitei o convite, pensando em fidelidade.
Fidelidade.
Muita coisa acontecera em pouco tempo, mas o meu namoro com o Felipe ainda existia e eu não fui fiel. Fidelidade é importante em relacionamentos, não? Não fui fiel a ele. Às vezes me pergunto se fui fiel a mim mesma.
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Mais um soldado.
A menina que um dia fora capaz de fazer meus pés deixarem o chão para me alçar involuntariamente em um voo sem direção, tornara-se ruim, mas só perdendo tudo é que eu consigo perceber o valor imensurável que possuem. Eu voava e a minha única preocupação era a de me manter longe do solo (talvez por querer aquela sensação pra sempre, talvez pelas más experiências com colisões).
O ser humano está fadado a ceder quando o cansaço - físico ou mental - começa a corroer pouco a pouco as entranhas, trazendo aquele calor fúnebre para cada pedaço do corpo (até mesmo os mais ínfimos). Eu estava cansado de ser mais um soldado marchando por aí. O calor me congelava (acho que quando a dor é muita, o nosso corpo se torna vazio, sem vida, frio) e eu precisava apagá-lo.
Joguei-me, desejando nunca mais acordar.
Afoguei-me, desejando pela última vez me encontrar.
O céu só é o limite pr'aqueles que têm medo de voar.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Diabetes.
Romeu, velho e carcomido pelo tempo, arrepende-se do que não fez quando jovem. O arrependimento é clichê, já que sempre desejou morrer de amor e a paixão por Julieta nunca tenha sido suficiente. Ninguém jamais foi o suficiente para satisfazer Romeu, mas ele aprendeu a aceitar a vida como é. Poucos são aqueles que encontram um amor, continuam saudáveis e morrem com ele ao lado.
Aprendeu toda a relatividade que há na felicidade e que o amor não existe. Pra ele, o amor só existe na cabeça das pessoas e a amnésia constantemente põe fim nele. Romeu sempre desejou que o Alzheimer levasse embora as suas preocupações e angústias, mas este só faz o trabalho de tomar pra si o que há de bom nas pessoas.
Aqui jaz um triste palhaço - Na fase atual, Romeu só pensa em como será a sua morte. Olha para o seu fim de forma bem-humorada, ja que nunca foi bom com palavras a ponto de escrever um Haicai. Nunca foi bom em nada. Portanto, toda noite pede para Julieta sussurrar em seus ouvidos o quão importante ele é e foi. Julieta, com doçura, age como se amasse um homem doente. Julieta continua sendo doce, porém a doença que mais aflige Romeu cria a maior mentira do mundo para Julieta. Romeu agora é diabético.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Bons dias.
Os móveis na sala não são mais de acaju, tudo mudou e as duas semanas que se passaram causam-me impacto de dois anos. Prendo a respiração ao passar por aqui; não gosto dos porta-retratos expondo fotos felizes, suas e de outras pessoas.
No velho triturador de papel:
Enquanto respirar
o vento que leva
e Eu quiser morrer
sem você lá ou aqui
pois conosco,
nada
nunca irá
além do
velho erro que é
amar alguém.
Eu ainda lembro de quando escrevi, deitado na cama, contigo ao lado mexendo no meu cabelo e contando histórias engraçadas pra me desconcentrar. Mas agora o texto está desfigurado e tosco, agora quer dizer outra coisa completamente diferente.
Eu às vezes acho que seria capaz de sentir arrependimento de todos os nossos segundos juntos, mas eu ainda não tenho coragem de levar as minhas coisas. E quando eu pegar o meu travesseiro, perguntarei-me o porquê de poder te imaginar aqui comigo e não poder te ter. E eu também vou me perguntar aonde foi que eu errei.
domingo, 29 de agosto de 2010
Velhice.
Chegamos ao lugar prometido. Essa é a baliza mais longa que já vi, cada toque no volante equivale a horas que na verdade são frações dos segundos que tiro pra pensar. Vejo tudo, mas não enxergo nada.
Envelhecer tem sido uma merda desde o dia em que me olhei no espelho, pela manhã e encontrei o primeiro fio de cabelo branco na cabeça. Desde então, venho me tornando inútil em parcelas. A cada ano fui perdendo virtudes diferentes. Hoje não acordo cedo, nem trabalho, estudo ou namoro. Não tenho amores ou pernas pra correr.
A tarde chega e me toma nos braços, obrigando-me a me esforçar para não demonstrar os piores dos meus sentimentos. Esse lugar não é dos piores, mas passa uma falsa ideia de alegria que não me agrada. esse gramado verde, essa música clássica ecoando ao longe e essas paredes brancas mal pintadas não me trazem paz, já que são tão melancólicos quanto eu.
É estranho ser velho, a todo momento você sente que vai morrer, mesmo que quando a tua hora tá chegando tu tem a confirmação; é a velha história do teu filme que passa, e isso é verdade. É verdade e a tua alma dói de tanto que tu ri dos teus momentos. No meu caso ela chora, não por tristeza e sim por arrependimento. Arrepende-se de não ter feito todas aquelas tatuagens que eu tanto quis, de não ter apostado em todas aquelas coisas que poderiam ter dado muito certo. Arrepende-se por só agora perceber que viver pra trabalhar é diferente de viver pra trabalhar. Continua se arrependendo por não ter sofrido por mais amores.
O ruim de ser velho é andar tão próximo da morter a ponto d'ela chegar a qualquer momento, em silêncio, e você não perceber. E, agora que morro, sei que o ruim de ser velho é morrer com raiva do teu filho por ele ter te jogado em um asilo.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Nowhere Love. Parte 3
Era impossível concentrar-me nos meus pensamentos por diversos fatores. Um, tinha um casal quase se comendo na minha frente e aquilo estava me emputecendo pra valer. Fazia eu me lembrar toda aquela parada que acontecera com Felipe. Dois, os seguranças do teatro estavam chamando a atenção do casal e aquilo me emputecia mais ainda, pois eu tenho certeza que eles não eram tão retardados a ponto de realmente se comer. Algumas pessoas precisam ter noção do ridículo. E o terceiro fator, e o que mais me deixava aflita, era ator principal, que interpretava o depressivo Harry Haller, que não parava de lançar olhares para mim.
Ao fim da peça, os atores anunciaram que estariam tirando fotos e fazendo outras coisas que atores fazem ao término de peças. Quem se interessasse deveria sair pela saída de emergência. Como eu não estava interessada naquela merda toda, saí pela mesma porta que entrei.
Pro meu azar, todos do teatro resolveram cumprimentar os atores.
“Hei, dá licença. Eu quero subir”. Eu falava, em vão.
Acabei indo parar em frente à saída de emergência. Fui falar com os atores. O Harry Haller ainda não tinha tirado os olhos de mim.
domingo, 1 de agosto de 2010
Nowhere Love. Parte 2
Por fim, esbarrei em um cartaz que dizia: “Die lüge – A mentira”. Era o anúncio de uma peça. Provavelmente era mais uma daquelas peças idiotas, sem conteúdo e com atores tão péssimos quanto os que atuam em ‘Malhação’. Mas quem sou eu para criticar? Senti-me atraída pela peça apenas pelo nome em Alemão. Decidi que assistiria. Me arrependi.
- Uma inteira, por favor. – A moça que vendia os bilhetes tinha o rosto simpático, mas as rugas revelavam um sofrimento no passado. Resolvi ficar quieta.
- Inteira, tem certeza? Você me parece jovem, menina. – Eu sabia que ela era simpática. Estava fazendo isso tudo só para eu pagar menos. Mas eu não estava com cabeça pra isso.
- Tudo bem, moça. Quero uma inteira mesmo. – Tentei sorrir. Falhei.
- Então tudo bem, menina. Eu só tenho ingressos para a primeira fileira. Algum problema?
- Nenhum.
A fachada do teatro era-me familiar. Acho que era ali que meu avô me levava quando eu era mais nova, mas naquela época as coisas eram diferentes. Drogados não se faziam presentes, espalhados pela rua, a pintura ainda tinha cores vívidas e não aquele cinza sujo pelo tempo, não havia marcas de sangue no chão, nem agulhas pela calça.
Entrei.
Coragem.
A segunda virtude, pra mim, é a coragem. Às vezes tudo que precisamos é um pouco de coragem, não importa se esse encorajamento sai de nosso interior ou se ela vem como a ajuda que precisamos, de um anjo da guarda. A vida é um jogo de azar e o vencedor é sempre aquele que tem a maior cara de pau.
Vale ressaltar que naquela noite eu descobri que autoconfiança em demasia pode prejudicar.
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Nowhere Love. Parte 1
- Ta escuro lá fora. – Eu estava assustada, inegável. A essa altura do campeonato eu não sabia do que o Felipe era capaz.
- E daí, Fernanda? Desde quando eu me importo com isso? Sai agora! – A voz dele estava pesada. Felipe não era mais o mesmo havia algum tempo. Os meses decorridos após ele por na cabeça que eu o estava traindo passavam em câmera lenta. E em câmera lenta eu sentia todo o comportamento grosseiro do Felipe me matando lentamente. Por vezes ele deixa esse assunto de lado, como se não se existisse. Mas sempre volta a me perguntar sobre o Gustavo.
- Por que você continua com isso? Você sabe que o Gustavo e eu somos só amigos de infância, por isso somos tão próximos.
Felipe bufava de raiva. Apagou o cigarro na parede e me olhou com raiva. Por um momento achei que morreria aquela noite.
- Você me dá nojo. Mete o pé antes que eu mude o meu alvo. – Socou a parede com ar de quem estava tentando se conter. – Eu gosto muito de você. Não quero te machucar.
Paciência.
A primeira virtude precisa para manter uma relação é paciência, eu acho. Pelo menos na minha mente de menina adolescente fazia sentido, na época.
Eu aprendi a ser paciente com o tempo. Eu costumava esperar um sentimento igual ao que eu dava, mas percebi que é nesse ponto que pecamos. Eu vivia interpretando papeis para carregar mentiras que faziam sentido apenas na minha mente. Mudanças e permanências; seja o que for, não é igual. O amor não é igual. O amor não é pra sempre.